Aonde quer que eu vá, aonde quer que eu esconda, lá está você, me olhando com os olhos estreitos, vigiando cada passo meu. Você foi embora, ou ao menos seu corpo foi. Mas você insiste em ficar, você insiste em deixar sua alma aqui, sua presença. Eu te matei, te enterrei e joguei fogo. Assassinei a sangue frio, e agora você fica aqui? Vai me perseguir? Eu não achava que fantasmas realmente existiam. Eu sempre achei que eu era louca, mas não sou. Tenho lastimado sua perda, tenho vivido o luto da sua morte. Só assim para eu continuar vivendo sem pensar em você do outro lado conversando com outras pessoas, dividindo sua atenção, dando um pouquinho do seu tempo pra qualquer um que não seja a mim. Só assim pra eu colocar na minha cabeça (ou ao menos fingir que coloquei) que você se foi pra sempre e que acabou, que não tem volta. Isso tudo me corrói por dentro de uma forma inexplicável. É uma dor que não passa. Ela está sempre lá, mesmo que as vezes eu não a sinta. Eu sei que ela está lá, porque se eu paro de lastimar sua morte, eu começo a lastimar seu adeus e isso machuca. Tenho sorrido, saído, conhecido outras pessoas, mas é incrível a falta que você me faz. Eu nunca imaginei que um dia eu teria que falar para mim mesma que a unica saída era ter sangue frio e te matar. Te arrancar de mim. Talvez esse luto dure dias, meses ou até mesmo anos. Eu só quero acordar um dia e ver que você já não é mais um buraco, um algo faltoso no meio do peito.
Talvez esse seja mesmo o fim. Talvez eu tenha mesmo que te tirar de dentro de mim. Talvez eu tenha mesmo que te ressuscitar e lastimar o seu adeus.
Ou talvez eu possa continuar fingindo que você morreu e que talvez daqui dez anos você volte, e eu finja que eu também renasci, e que estamos em outra vida, e que podemos tentar vivê-la de novo. Talvez um dia você acorde e pense em mim, e sinta minha falta e perceba a vida que você jogou fora ao me deixar aqui... sozinha.
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